Café azedando, chocolate derretendo, frutas aguando, uma vida parada diante de tantas vidas aceleradas. Neste instante assim como vários no decorrer de 30 anos, em um café na praça central, observo a correria assim como a lentidão. Homens de negócio, donas de casa, jovens e idosos. E cadê você? Assisto diante de minhas lentes embaçadas pelo tempo de uso, o quanto aquela cidadezinha cresceu, tomou contornos de metrópole, novos cidadãos nasceram , cresceram e morreram, porém aqui estou eu: livro aberto, frases sólidas, letras pretas e vivas. Todavia, amareladas, comidas nas pontas por pragas. Sem imagens, sem cor, sem você. O meu incrédulo coração desdenha renovações. Jamais meu corpo praticou transformações. Nasci com barba, na juventude fui taxado pela "mentalidade de velho", envelheci rabugento e logo a beira do abismo que separa o vivo do morto me tornei defunto ambulante. Muitas vezes, encostaram comigo nas ruas e gritaram com temor diante de tanta morbidez. Será sua ausência causa de tantas características abomináveis? Afinal, quem é você? Recordo da única noite que tivemos juntos. Nela, fui explorado. Jogou em mim o gel do amor, uma pitada salgada da paixão, completou lacunas com promessas ao pé d'ouvido. Toda aquela poesia marcante evaporou e levou junto a obra prima: seu corpo escultural, sua alma singular e deixou junto, a um cansado pensador, a memória de quem um dia obteve a mais egoísta das práticas ou simplesmente a felicidade...
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